3 de setembro de 2007

O síndico

Parado diante da porta, como no ano passado e nos últimos quatro que se lembrava, o síndico escolhia as palavras como quem escolhe as armas de um crime perfeito. A música estava alta, mas ao contrário do que diziam os outros vizinhos, era plenamente suportável. O sorriso de uma convidada e uma taça de vinho na entrada da festa arrancou do rosto a expressão séria preparada no espelho do elevador. A cada degrau que subia repensava alguma das reclamações. Pensou nas últimas festas em que esteve. Mais silêncio, menos bebidas, muitos casais, mulheres conversando de um lado, homens de outro. Nisso a Dona Marlene do 22 tinha razão, as festas na cobertura eram coisa de outro mundo e nunca tinham hora para acabar. Pensou nas crianças do prédio que deveriam estar tentando dormir, coitadas logo estariam acordadas gritando no playground do prédio. Pensando melhor, dormir até mais tarde domingo não faria mal nenhum. Pegou outra taça e já estava no meio da pista de dança, procurando a dona da festa quando sentiu o celular vibrando no bolso. Era sua mulher, queria saber quanto tempo demoraria até acabar aquela bandalheira. Recuperou a expressão austera e prometeu resolver o problema o quanto antes. Algumas taças depois viu a dona da festa dançando do outro lado da pista. Ela acenou sorrindo como quem cumprimenta um amigo. Ele tentou falar, mas a musica estava muito alta. Foram para o lado de fora onde o síndico pode finalmente despejar suas reclamações. A musica estava muito alta, as pessoas estavam rindo e falando demais... Sim, concordo com você, mas isso é uma festa, se toda essa loucura, como você diz não estivesse acontecendo, minha festa seria um fracasso. A medida que ela falava, foi sentindo o efeito do vinho. Você me desculpe, sei que é seu aniversário, mas infelizmente temos que chegar a um acordo, pois os moradores estão reclamando, e... E você está gostosa hein. As palavras escaparam da sua boca e por um minuto fez sumir a música e todas as pessoas. Todo o significado da palavra vergonha coube nos dois minutos em que ela ficou muda olhando o vazio enquanto ele voltava para casa com a certeza de que neste ano nem a festa acabaria cedo e nem um crime seria jamais perfeito.

3 comentários:

Marcio Pimenta disse...

Hahaahahhahahahahaah adorei!!!!!

Beijos...

Anônimo disse...

imagino.coitado do síndico,ter que dar bronca numa visinha dessas não é nada fácil!!!!!rsrsrsrsrsrsrsr

Pedro/RJ disse...

Rs .. animada a sua festa. E esse síndico ainda quis atrapalhar??