17 de fevereiro de 2012

A Pele que Todos Habitam


De dentro do escuro , torcendo pela vida de um estuprador, questionando os valores morais de um médico capaz de salvar muitas vidas, menos a sua, entendi a politicagem do correto.

Costumo fazer terapia também no cinema. “A Pele que Habito” , filme do genial Almodovar, me trouxe mais ferramentas para uma questão a tempos discutida entre os poucos amigos que ainda se prestam a este luxo, a discussão da conduta humana. Como julgar, ou por que julgar o que nos é desconhecido?

Durante o filme, diferente da maioria das tramas americanas, o mocinho e o bandido trocam lados, cutucam nossas feridas e estapeiam a nossa “boa conduta”. Quem merece ser julgado? Qual o mau é mais maligno e qual é superável?

O certo e o errado, conceitos banalizados hoje em dia, vão fundo no abismo da filosofia. Ficar cara a cara com nós mesmos é assustador, mais ainda quando nos damos conta de que também aquela parte escondida, abafada, somos nós. 

3 de fevereiro de 2012

Receberia as Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios

O Título é tão lindo que espanta. Dá medo. Parece aquelas embalagens maravilhosas que escondem alguma jóia dentro. De tão bela da medo de abrir.
Acho que foi por isso que o guardei tanto tempo.

"Eu Receberia as Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios ", dá para ser mais lindo?

Comprei o livro no lançamento. Faz tempo viu. Fiquei olhando para a capa. As letras escritas e uma fonte bacana, uma câmera de fotos no canto. Tudo me atraiu logo de cara. E sempre que isso acontece, minha reação é a mesma. Me afasto. As vezes acho que tenho medo de tudo que sei que vou gostar. E sabe do pior? Eu sempre sei. Não erro. Pode ser livro, gente ou comida. Basta olhara e sentir o perigo chegando.

E quem é que não gosta de perigo?

As vezes tento me enganar. Coisas de mulher. Vejo um livro comercial, colorido, daqueles que todo mundo gosta. Ele olha pra mim. Mas não tem mistério. Não tem risco. Tá tudo lá. Compro. Levo sem embrulho mesmo. E aos poucos vou virando as páginas. Claro que tenho esperança de me deparar com um grande romance. Quem não tem? Mas os clichês vão derrapando nos dias. Lugares comuns. Personagens previsíveis.

Ainda carrego ele comigo por algum tempo. Mãos dadas com ele. E nada. Nada de chegar a lugar algum. Até que desisto. Nem preciso ler até o fim para saber que já chegou ao final. Digo adeus e vou.

O problema é quando aparece um que não me deixa dormir. Me faz cancelar compromissos. Até minha corrida sagrada. Fico deitada com ele observando cada detalhe. Suas linhas, fluidez. Seu perfume.
Mas estes são perigosos, eu sei. Vão nos levando descuidadas para caminhos sem volta. Nenhuma palavra apenas está ali. Elas são pilares de um templo construído minuciosamente para nos prender lá dentro.

Ontem, depois de muito tempo, minhas amigas que sabem tudo de literatura e da vida falaram sobre o tal livro. Lembrei logo do título. Assustadoramente lindo, não?

Agora, quase 30 horas depois e alguns compromissos cancelados, estou quase acabando. Faltam apenas 30 páginas. Decidi parar. Vou deixar que o Cauby e a Shirley existam por mais uma noite em mim. Amanhã tudo volta ao normal, como não há de ser. Como é, sempre que acabamos de ler um livro como este. Obrigada, Marçal Aquino. 

1 de fevereiro de 2012

Pense nisso

"Cuidado com você mesmo mais do que com qualquer outra pessoa; carregamos dentro de nós nossos piores inimigos". Charles Spurgeon.

27 de janeiro de 2012

What's up, Whatsapp?

E a tecnologia chegou com a chuva fina temperando minha cidade.
Ainda com saudades daquela emoção que só quem está conhecendo pela primeira vez alguma parte íntima do mundo conhece, mergulhei num livro, A Arte de Viajar, do Alain de Botton, que só estava servindo para me dar mais vontade ver todas aquelas coisas que os guias não mostram e a gente vai esquecendo aos poucos,  enquanto vai se transformando sem nem se dar conta. Ah, viajar...

No Rio de Janeiro, meu amigo Ricardo reclama de estar sozinho numa sexta feira que poderia ser promissora caso ele tivesse agido diferente nos últimos dez anos. Lá na Escócia, meu amigo Rodrigo  coloca seu pijama e me pede pela decima vez para mandar uma foto dele na janela de alguma ruína do Cambodia. Na Escócia está 1ºC e desconfio que ele também está pensando em ter uma sexta feira promissora. Tento voltar para o livro. 

A Gra me chama para contar que seu pseudo namorado está mais pseudo que namorado. E a sexta a noite que poderia ser promissora continua chuvosa. Fecho o livro e penso em abrir uma agencia de aluguel de namorados (as) que funcionaria principalmente às sextas chuvosas. O Ricardo lembra que tem uma vizinha nova. Aconselho um contato. Eu achava que sexta chuvosa era uma maravilha para ler, ouvir música e ver filme. Mas acabo de me dar conta que também estou sozinha. Juro que eu achava que estava me acompanhando. Lá se foi minha leitura. Eu também deveria estar tendo uma sexta feira promissora.

A vizinha do Ricardo topou assistir um filme. O Rodrigo recebeu a foto e pela falta de resposta o clima lá esquentou. O pseudo namorado da Gra acabou de ligar. Ele está levando o jantar e um filme. Meu livro está emburrado num canto. 


31 de dezembro de 2011

Ano Novo de Novo


Se tem um dia onde tudo é possível, este dia é hoje.
Dia 31 de dezembro os gordinhos doam seus quilos a mais com a voracidade em que devoram uma bomba de chocolate no dia primeiro do ano. A economia para pra ver o sumiço das dívidas abandonadas no altar.

Hoje é dia de acreditar que 365 dias cabem em algumas linhas e muitas promessas. Debaixo de roupas brancas, trajes de gala, matrimônio, esportes e praia. Um mundo feito sob medida, costurado debaixo de uma sombrinha e ao sabor de água de coco.

Hoje não cabe tristeza, brigas ou fome. É dia de fartura. Rolhas voam sem destino. Amigos se abraçam sem deixar espaço para intrigas, traições.
Alegria pouca é bobagem, a festa arrasta bengalas e carrinhos. Ano novo não tem idade. E como dezembro é o fim de semana dos meses, dia 31 é a festa de debutante dos dias. Pode abrir o presente como se hoje fosse todo o teu futuro.

Vai lá, pega o telefone e liga para a família, amigos. Deseja aos seus, tudo o que de melhor puder colocar em palavras. Aproveita que já está com o telefone nas mãos e liga também para aqueles que pensou em ligar nos outros dias do ano, nos outros réveillons mas não teve coragem ou deixou para depois.

Confere a comida da mesa e tenha certeza de ter feito tudo em dobro, afinal hoje nada pode faltar. Aproveita e pega um pouco da ceia, a que vai sobrar para o almoço de amanhã, e ofereça para o porteiro, mendigo ou qualquer outro esquecido que encontre pelo caminho.

E já que está no caminho, fique mais um dia ou dois vestido de coragem. Deixe para tirar esse sorriso do rosto depois do carnaval, quem sabe até lá ele já se acostumou e pode até ficar. Esqueça as mazelas da vida e passe mais alguns dias acreditando que as pessoas não são tão ruins como parecem, quem sabe elas também acreditem.

Daqui do meu dia perfeito, desejo a vocês que ele dure pelo menos mais 365 dias e que aí, dentro de cada um, caiba tanta energia quanto a crença de que no ano que vem, tudo vai ser diferente.

21 de dezembro de 2011

Férias


O trabalho na escola mal havia acabado, eu pegava a mala e me mandava para o Mato Grosso.

Descobri cedo que a natureza, assim como meu pai, não tirava férias.
Antes do sol, eu já estava de pé com a caneca cheia de Ovomaltine, esperando o leite grosso e morno sair espumando das torneirinhas da vaca.
Acabava, vestia minha roupa de trabalho, calça jeans e bota e ia para o curral. Na época eu pensava em ser veterinária. Trabalhava com a Nayá, a veterinária da fazenda. Criança lá, era apenas mais uma palavra. Minhas funções eram coisa séria. Vacinar o gado, operar umbigueira, exames de sangue e por ai vai. Achava o máximo a agulha torta e as pinças para fechar as veias do touro, anestesiado por mim, claro. O trabalho era duro e ficávamos todos até a hora de terminar o serviço, dia ou noite, segunda ou domingo.

Ele me chamava para trabalhar e estava sempre lá, se divertindo, fazendo o que mais amava. Comecei a achar esse tal de trabalho uma maravilha.
Fui crescendo e desentendendo o mundo que acordava cedo reclamando, ia ao trabalho rezando para chegar a hora de voltar para casa e passava a semana toda esperando os finais de semana para se livrar do trabalho.

Acordo cedo e no lugar do leite morno, tomo suco, calço os tênis e corro. Meu trabalho continua sendo sério e eu continuo sendo criança. Opero e tiro o sangue das palavras, me divirto com os nós que dão as frases e não conto os dias, feriados ou finais de semana, crio os contos para contar a vida.

Minha fazenda é meu computador. Meu escritório é o mundo e meu trabalho são minhas férias. É por isso que em breve vou levar meu escritório comigo para Tailândia, vou seguir o que sem saber, meu pai me ensinou. Nestes dias, estarei trabalhando aqui.

19 de dezembro de 2011

Supermercado Super Black


Banana, ovos, salada. Compra pesando e o carrinho do mercado vai nos enlouquecendo.
Mas e as batatas? Tem também arroz, mandioca, carnes. O frango Korin, orgânico.
A esta altura os ovos já estão tremendo, quase virando gemada e a banana, uma bela bananada.
Quem sabe como arrumar carrinho de supermercado?

Na Agenda Black, grupo do Facebook que tem soluções para absolutamente tudo, esbarramos num dilema. Na hora de arrumar um carrinho de mercado, estamos na lama.

Saltos Leboutin ou havaianas, não há quem não derrape. Como não amaçar as bananas? Na hora das compras, não há black ideia que resolva e isso só pode significar uma coisa. A culpa é do sistema!

Quase tudo no mundo evolui. Pega uma senhora de interior que vive na fazenda e leva para uma cozinha moderna. Ela vai perguntar onde está o piloto da nave alienígena. Agora leva ao mercado. Etiquetas que, ao invés dos produtos, agora moram nas prateleiras. Mocinho da carne, dos frios e até a balança das frutas em alguns lugares é exatamente a mesma. O carrinho pode ter ganho design refinado, mas o sistema da vendinha continua o mesmo.

Tira da prateleira, coloca no carrinho. Tira do carrinho, um pouco amassado, coloca no caixa. A mesma moça, com a mesma voz, apenas as unhas mais coloridas e os cabelos mais lisos. Fica atrás de uma maquina, que pode até não ser a registradora, mas é bem parecida. Coloca no balcão, faz as contas. Coloca de volta no carrinho. Carrega o carrinho. Pensa em como colocar as sacolas para não amassar a banana. Tira do carrinho e coloca no carro.

Que sistema é esse?
Onde estão os ET’s que criaram as cozinhas, os iphones e até nuvens ( iclouds)? Por que alguém não moderniza nossa vida de donas de casa? Nós somos super mulheres pós modernas, mas também nos preocupamos com nossas bananas

Vamos Montar em Elefantes. Por que?



Bebê elefante sendo domesticado.
Passear montada num elefante. Tem coisa mais incrível que isso? 
Enquanto pesquisava sobre este passeio, tão comum na Tailândia quanto andar de taxi em Nova York, uma questão surgiu.
Como estes animais selvagens se tornam tão dóceis? Estranho eu ter esta dúvida, afinal quem se pergunta como é possível comprar algum produto por menos de um décimos do valor, apenas por ser feito na China?
Qual a importância se aquela bolsa foi fabricada por uma das milhares de crianças escravizadas e por isso fazem com que a mágica aconteça?

Da mesma forma, não ha porque se perguntar como é que aquela linda escultura de marfim foi parar em alguma loja escondida e depois na estante da sua sala. Quem se preocuparia com tantos elefantes sendo massacrados, tendo suas cabeças arrancadas enquanto sangram até a morte? Este é um assunto pesado, melhor mudar e falar de coisas boas, não é? O marfim é um artefato lindíssimo. Seu tom é tão espetacular que até nome de cor já virou.

O povo tailandês, diferente de nós, ocidentais, tem uma cultura milenar, aprende o que aprenderam os mais velhos e fazem o que é preciso para ganhar o dinheiro necessário para alimentar os filhos, mesmo que isso signifique torturar elefantes presos numa jaula, até que eles “aprendam” a ser dóceis e entendam quem manda, quem é o animal inteligente.

Mas por que eles precisam maltratar os elefantes? Por que eles precisariam de marfim? Eles mal têm estantes para guardar objetos. Nós temos.
Nós temos casas decoradas ao estilo africano com patas de elefante cortadas para serem usadas como bancos e combinarem com a cabeça do tigre pendurada na parede.

Africanos exibem o troféu depois de matar os animais
Nós temos criatividade. Nós somos tão geniais que conseguimos empalhar animais mortos de forma tão perfeita que eles ficam idênticos aos vivos. Somos tão geniais que estamos criando um mundo todo à nossa semelhança. Um mundo onde elefantes se deitam para que nós, seres superiores, montem e passeiem pelas nossas terras. Somos nós, os donos das matas, florestas e rios, hoje poluídos por nossa genialidade.

Nós somos mestres em recriar mundos, tanto que em breve, quando os animais selvagens desaparecerem, vamos viver num Bush Gardens. Imagina que maravilha, poderemos até controlar a altura do rugido de um tigre. Quem sabe ainda possamos criar um mar artificial, com golfinhos de controle remoto? Teremos que inventar um capacete para guardar nossa mente genial e fabricar nosso próprio oxigênio. E nesse dia seremos soberanos, donos do mundo e os únicos seres vivos sobre a Terra.

Por isso, antes da festa acabar, quem sabe seja bom começar a se questionar sobre as mágicas.

16 de dezembro de 2011

Nós Temos o Poder


O fenômeno do Facebook e das mídias sociais em geral mostram um fato novo, alarmante. Estamos todos expostos. Não apenas os filmados, pegos em flagrante em momentos íntimos ou situações constrangedoras, mas as pessoas por trás das câmeras.
Que tipo de desejo mórbido existe na mulher que filma o assassinato de um cão? O que passaria na cabeça dela naquele momento? Certamente ela não estava torcendo para que a mulher parasse, se estivesse, teria gritado, chamado ajuda. Mas não. Ela segue firme, filma cada momento a espera do grand finale ( que eu não vi, pois não consigo assistir este tipo de coisa).Mas o que então?
Pensaria ela na quantidade de visitas que teria seu filme? Desejaria um desfecho dramático? Vendo por aí, quem é mais perversa? Uma mulher visivelmente descontrolada, movida por um ódio doentio, ou uma calma pessoa que simplesmente assiste a tudo sem interferir, sem mostrar nenhum sentimento.

O que faria esta mesma mulher que filma, caso a tal enfermeira resolvesse matar também a criança? Continuaria filmando?

O que faz com que um menino simplório que bêbado, reclama diante da câmera nas mãos do irmão, da sua carência, da falta de cutucadas no Facebook? Esse mesmo meninos tornou-se famoso, tem mais de três páginas no Facebook e milhões de cutucadas. Tudo isso porque? Porque ele se expôs. Ele trocou sua privacidade por um bocado de atenção. Mas e agora, como é o resto da história deste menino que se apresenta como o “Cutuca”?

Certamente temos nas mãos uma arma poderosa, mas será que sabemos como usa-la? O poder nunca esteve tão acessível, nem o perigo.

Um homem mau sem poder, será apenas um homem mau, mas dê poder a ele e verá o tamanho do estrago.

Sobre um assassinato e muitos culpados.



Um crime. A assassina, uma enfermeira. A vítima. Um cachorrinho simpático. Estes dias me chamou a atenção, a quantidade de pessoas revoltadas, em relação a uma mulher, a meu ver, com sérios problemas mentais.
A tal mulher, matou um cachorrinho a pancadas, na frente do filho de três anos, de forma tão violenta que eu não conseguiu assistir mais de 30 segundos do vídeo.

Uma foto, com endereço, nome e dados pessoais da tal mulher está sendo divulgado no facebook por milhões, sim, você entendeu direito, milhões de pessoas. Pessoas, as quais, pedem que a mulher receba o mesmo tratamento que o cachorro. Adolescentes que dizem palavras que me assustam.
Como pode uma pessoa sensível a ponto de amar os animais ter todo esse ódio e vontade “estraçalhar a carne” de outro ser humano?
Quando, na história da humanidade, sangue foi combatido com sangue e resultou em paz? Alguém pode me dizer?

Outra coisa me chamou atenção. Nenhuma das pessoas “sensíveis”, apaixonadas por animais, sequer questionou o sofrimento da pobre criança que continua viva e ao lado da mãe.

O fato é que estamos julgando um momento e deixando todos os outros que se passam por trás das câmeras impunes. Mais do que punir esta mulher, me preocupo com a segurança física e mental da criança.

Num dos comentários, uma pessoa alega que somos todos assassinos pois comemos carne. Esta, além de ser uma frase extremamente clichê, não cabe no assunto. Digamos ao nosso amigo que, sim, eu como carne. Eu sou um ser humano e como tal, sou carnívoro. Da mesma forma é o tigre, o leão,  e a doninha anã, um corpinho de 11 cm que também come carne. Esta é a natureza.
Basta assistir ao Discovery Chanel para ver ataques assustadores de leões comendo outros animais.

Um ataque assustador, não faz parte do meu dia a dia. Não me vejo correndo atrás de uma vaca e atacando sua jugular enquanto um banho de sangue mancha meu vestido florido. Acho inclusive que, se dependesse de mim, não mataria animal algum. Mas somos homens, temos a opção de escolher. Alguns se adaptam a alimentação vegetal, da mesma forma que outros podem comer gluten. Eu não. Tentei ser vegetariana e pela primeira vez na vida tive uma doença séria, fiquei anêmica, mas isso já faz muitos anos e hoje, a única coisa que não como é gluten. Agora me digam. Sou uma assassina porque gosto de churrasco?

Uma pessoa que quer matar, espancar outra é menos assassina do que a mulher que matou o cachorro? E se o cachorro tivesse matado o passarinho da tal mulher? Isso justificaria ela espancar e matar seu animal?

É assustador a violência contida nas pessoas hoje em dia. Depois dizem que ser vegetariano faz com que sejam mais dóceis. Acorda gente. Usem esta energia para trabalhar, para mover o país, para mudar as coisas que ainda podem sem mudadas. Que este crime horrível sirva de lição para que fiquemos mais atentos, para que da próxima vez, ao invés de filmar, a mulher procure ajuda e tente impedir o crime. Mas esta já é outra história, que trato aqui.

Vamos usar nossa força para o que pode ser feito. E não para o rancor, a raiva e o ódio, sentimentos que como bem diz Shakespeare é como tomar veneno e esperar que o outro morra.

11 de dezembro de 2011

Livro. Escolha o Seu


Acredito que pessoas que dizem não gostar de ler, ainda não encontraram o livro certo. Para mim, este é um prazer maravilhoso, além de enriquecedor, ainda nos ajuda a passar o tempo. Costumo carregar sempre um livrinho comigo, assim, espera em médicos, reuniões, nada mais é tempo perdido.

As queridas amigas da Agenda Black, perguntaram sobre dicas de livros. Eu bem que comecei a escrever lá, mas linhas depois, me dei conta de que minhas dicas tomariam mais espaço do que qualquer outro post, por isso, resolvi coloca-las aqui. Certamente estou esquecendo de muitos, mas aos poucos, espero me lembrar e vou completando a lista. Por enquanto, estas são as minhas dicas.

Livros para quem quer ler na praia, piscina, sem ter que mergulhar em outro mundo:
  • Doidas e Santas ( Martha Medeiros)
  • Nunca Treze à Mesa ( Orieta Del Sole)
  • Tim Maia ( Nelson Motta)
  • Todo Terrorista é Sentimental ( Marcio Menezes) este aliás, vai virar filme, acredito que o sucesso será como o de Tropa de Elite.
  • Clarice na Cabeceira ( Clarice Lispector) Crônicas publicadas por ela.
  • Cartas perto do Coração ( Fernando Sabino) Cartas trocadas entre Clarice e Fernando Sabino
  • A Medida de Todas as Coisas (coletânea de contos ) Contos que falam sobre um mesmo tema: Pai. Eu sou uma das autoras, e se o livro não fosse todo muito bom, não recomendaria.
  • Steave Jobs
  • Nelson Mandela, conversas que tive comigo ( Nelson Mandela)
  • Canalha ( Carpinejar ) 
Livros para quem quer mergulhar um pouco mais na leitura:

  • No Teu Deserto ( Miguel Souza Tavares )
  • Dois Irmãos ( Milton Hatoum)
  • O Amor nos Tempos do Cólera ( Gabriel Garcia Marquez)
  • Cem Anos de Solidão ( Gabriel Garcia Marquez)
  • Sábado ( Ian McEwan )
  • Na Praia ( Ian McEwan )
  • A Cura de Schopenhauer ( Irvin Yalom )
  • Quando Nietzsche Chorou ( Invin Yalom )
  • A Felicidade Desesperadamente ( André Comte Sponville )
  • Meu Nome é Vermelho ( O. Pamuk)
  • A Máscara de Dorian Grey ( Oscar Wilde ) meu livro mais grifado.
  • O Afinador de Piano ( Daniel Mason )
  • A Beleza Salvará o Mundo ( Tzvettan Todorov )
  • Muito Além do Nosso Eu ( Miguel Nicolelis )


Para mergulhar de corpo e alma:

  • O Amor Segundo GH ( Clarice Lispector)
  • Pequeno Tratado das Grandes Virtudes ( Andre Comte Sponville)
  • A Arte de Viajar ( Alain de Botton)
  • A Arquitetura da Felicidade ( Alain de Boton )
  • Crime e Castigo ( Dostoiévski )
  • 2666 ( Roberto Bolãno )
  • A Marca Humana ( Philip Roth )
  • Em Alguma Parte Alguma ( Ferreira Gullar )
  • Grande Sertão: Veredas ( Guimarães Rosa )
  • O Coração da Trevas ( Conrad )
  • Mrs. Dallowey ( Virginia Wolf )
  • O Deserto dos Tártaros ( Dino Buzzati )
Meus clássicos preferidos :

  • Guerra e Paz
  • Ulisses ( James Joyce )
  • Lolita ( Vladmir Nabokov )
  • A Ilíada e a Odisseia ( Homero )
  • A Divina Comédia ( Dante )
  • Madame Bovary ( G. Flaubert)
  • Volta ao Mundo em 80 Dias ( Julio Verne )
  • Moby Dick ( Herman Melville )

25 de novembro de 2011

Sobre um Belo Monte de Coisas



Minhas sobrinhas brincando com moradores locais.

Quem escreve este texto não é uma paulistana. Embora nascida em São Paulo, fui criada na Amazônia. Convivi com índios e aprendi a amar a floresta mais do que qualquer outro lugar no mundo, e olha que já conheci muitos lugares por aí, mas nenhum com as curvas dos nossos rios e a quantidade de verdes de nossas árvores. Sou filha de um homem que nunca quis sair da própria fazenda pois dizia, e hoje acredito, que não havia no mundo lugar como aquele.
Diferente dos que levantam a bandeira do “Contra Belo Monte” sem o menor conhecimento de causa, venho me informando nos últimos tempos. Por um único motivo, eu quero saber do que é que estou falando.
Maravilhas da A,azônia
Eu não fui até a área que será alagada. Fui para a China, fiz uma viagem pelo sul do país onde o foco era: Hidroelétricas. Mais do que conhecer usinas, convivi durante vinte dias com os maiores especialistas em energias limpas do Brasil. Aprendi sobre a enorme riqueza do nosso país em matéria de energia. Temos ventos constantes no nordeste, o que torna o lugar perfeito para energia eólica. Temos milhares  de Km de rios e muita chuva. O que acontece é que quando chove, não venta, e vice e versa, sendo assim, fica claro que o ideal seria que tivéssemos as duas fontes de energia. Mas há um problema. A energia eólica, embora cause um dano menor à natureza, ainda tem um custo muito alto, fator que certamente com o tempo vai melhorar, assim como aconteceu com as hidroelétricas.
Também entendo que, ao contrário do que falam os artistas, não seria possível “trocar uma Belo Monte por uma eólica”. Por um motivo bem simples. Ao invés dos 516 km alagados (sendo que metade desta área é rio, mas eles também não dizem), seria necessário 1306 km2, isso considerando uma área plana e em perfeitas condições para a construção de eólicas. O custo seria um número indecente.
Eu e meus irmãos aprendendo mais sobre usinas
Não satisfeita com as informações, conversei com um especialista em energia, Otto Vilela.
“Vendo pelo lado sustentável, é muito questionável o impacto de uma usina daquele porte, países como Noruega, que tem grande potencial hídrico, como o Brasil, estão optando por fontes e projetos mais sustentáveis.

Geração distribuída (auto geração), casas com painéis solares e turbinas eólicas, que inserem energia no sistema, eficiência energética...Tem muita coisa pra ser feita.

Por outro lado, as usinas térmicas, gás, óleo, carvão tem aumentado muito, estas sim, poluidora, além da nuclear, que eu sou contra, apesar de ser limpa, entretanto, não vale o risco enorme de uma contaminação, vendo por esse lado, grandes hidrelétricas são preferíveis.”

Cachoeira onde costumava ir com meus irmãos
Acho uma pena, os produtores do video terem gasto uma fortuna para falar tanta baboseira, tivessem eles falado com alguém que entende do assunto, poderiam até ter chance de convencer alguém.
Mesmo assim, eu acredito que o Brasil seria ainda mais bonito sem Belo Monte, sem Angra I e II, e como disse uma grande amiga minha, a Danita, seria melhor se o Belo Monte fosse apenas belo. Mas a contrapartida disso tudo é o progresso. É o consumismo desmedido.
 Muitos têm tempo para entrar no FB e postar vídeos, pedirem para salvar o planeta com um clic enquanto estão sentados em seus escritórios no ar condicionado, usando seus iPhones, iPads, carros que consomem gasolina, aquecimento elétrico para tomar seus banhos quentinhos. É fácil falar de 560 Km que representam menos de 0,0092% da nossa Amazônia. Nem vou falar das madeireiras e queimadas ilegais que devastam mais de 7000 km por ano da mesma floresta. Mas isso, vocês ainda não sabem, pois não fizeram video.
Tudo o que envolve muito dinheiro no Brasil e também em outros lugares do mundo, levanta suspeitas. Belo Monte não é diferente e não defendo os interesses financeiros deste projeto, defendo que se analise a realidade e não fatos deturpados.
Minha irmã, Maressa, na fazenda.
Se eu pudesse escolher, viveria num país com menos carros, menos concreto, menos TV, menos consumo e mais gente. Viveria com menos luxo e mais qualidade de vida. Teria prazer em assistir à construção de parques e não shoppings, de mais bibliotecas e menos salas de vídeo game, de mais praças onde pessoas de encontram para conversar e menos lanhouses onde pessoas se recriam para encontrar com amigos que nunca viram ao vivo.
Mas a realidade é outra e é culpa de vocês. De todos vocês que se recusam a andar um quarteirão a pé, que saem de casa e deixam a luz acesa, “para espantar ladrão”. Eu, você, todos nós somos vítimas das nossas escolhas, mas não somos vítimas das nossas palavras. Fale o que pensa e pense para falar, mas não me venham com essa lição de moral de salvar os índios enquanto vocês estão sentadinhos atrás das suas mesas de madeira, usando carteiras de couro e comendo frutinhas importadas que vieram queimando combustível em navios até chegarem ao supermercado super refrigerado onde você estaciona seu carro e escolhe o que bem quer.
Sou a favor da discussão consciente, discutindo e estudando é que se formam opiniões de peso. 

20 de novembro de 2011

Sertão


Foto: Sebastião Salgado





Reconheci apenas as mãos. Da última vez em que as vi, enxugava a saudade num trapo sujo de terra. Minha irmã se apoiava na barra da única saia florida. Gritava descorada as notas de um certo violão.

Os pés, nus como agora, fincados no chão de onde ela nunca saiu.
A mancha no ventre me lembrou meus irmãos. Sete. E eu, nascido de outra, filho dela.

Procurei seus filhos. Ocupados, casados, distantes, alguém respondeu. O anel, presente que dei com meu primeiro salário, ainda estava lá, preso no inchaço dos dedos e à última promessa. “Este fica comigo enquanto minhas mãos se moverem para lutar.”



Este foi o texto que tive a honra de ler ontem na Balada Literária, na Casa das Rosas, para a platéia mais qualificada de São Paulo.




3 de novembro de 2011

Excelente texto da Folha de SP

Lula, o câncer, o SUS e o Sírio (por Elio Gaspari/ Folha de SP)

As pessoas que estão reclamando porque Lula não foi tratar seu câncer no SUS dividem-se em dois grupos: um foi atrás da piada fácil, e ruim; o outro, movido a ódio, quer que ele se ferre. Na rede pública de saúde, em 1971, Lula perdeu a primeira mulher e um filho. Em 1998, o metalúrgico tornou-se candidato à Presidência da República e pegou pesado: "Eu não sei se o... Fernando Henrique ou algum governador confiaria na saúde pública para se tratar". Nessa época acusava o governo de desossar o SUS, estimulando a migração para os planos privados. Quando Lula chegou ao Planalto, havia 31,2 milhões de brasileiros no mercado de planos particulares. Ao deixá-lo, essa clientela era de 45,6 milhões, e ele não tocava mais no assunto.
Em 2010, Lula inaugurou uma Unidade de Pronto Atendimento do SUS no Recife dizendo que "ela está tão bem localizada, tão bem estruturada, que dá até vontade de ficar doente para ser atendido". Horas depois, teve uma crise de hipertensão e internou-se num hospital privado.
Lula percorreu todo o arco da malversação do debate da saúde pública. Foi de vítima a denunciante, passou da denúncia à marquetagem oficialista e acabou aninhado no Sírio-Libanês, um dos melhores e mais caros hospitais do país. Melhor para ele. (No andar do SUS, uma pessoa que teve dor de ouvido e sentiu algo esquisito na garganta leva uns 30 dias para ser examinada corretamente, outros 76, na média, para começar um tratamento quimioterápico, 113 dias se precisar de radioterapia. No andar de Lula, é possível chegar-se ao diagnóstico numa sexta e à químio, na segunda. A conta fica em algo como R$ 50 mil.)
Lula, Dilma Rousseff e José Alencar trataram seus tumores no Sírio. Lá, Dilma recebeu uma droga que não era oferecida à patuleia do SUS. Deve-se a ela a inclusão do rituximab na lista de medicamentos da saúde pública.
Os companheiros descobriram as virtudes da medicina privada, mas, em nove anos de poder, pouco fizeram pelos pacientes da rede pública. Melhoraram o acesso aos diagnósticos, mas os tratamentos continuam arruinados. Fora isso, alteraram o nome do Instituto Nacional do Câncer, acrescentando-lhe uma homenagem a José Alencar, que lá nunca pôs os pés. Depois de oito anos: 1 em cada 5 pacientes de câncer dos planos de saúde era mandado para a rede pública. Já o tucanato, tendo criado em São Paulo um centro de excelência, o Instituto do Câncer Octavio Frias de Oliveira, por pouco não entregou 25% dos seus leitos à privataria. (A iniciativa, do governador Geraldo Alckmin, foi derrubada pelo Judiciário paulista.)
A luta de José Alencar contra "o insidioso mal" serviu para retirar o estigma da doença. Se o câncer de Lula servir para responsabilizar burocratas que compram mamógrafos e não os desencaixotam (as comissões vêm por fora) e médicos que não comparecem ao local de trabalho, as filas do SUS poderão diminuir. Poderá servir também para acabar com a política de duplas portas, pelas quais os clientes de planos privados têm atendimento expedito nos hospitais públicos.
Lula soube cuidar de si. Delirou ao tratar da saúde dos outros quando, em 2006, disse que "o Brasil não está longe de atingir a perfeição no tratamento de saúde". Está precisamente a 33 quilômetros, a distância entre seu apartamento de São Bernardo e o Sírio.

19 de outubro de 2011

Escolha!


Estas são as dicas que uma pessoa que habita as profundezas da minha mente me disse no reveillon. Acho que eu estava esperando a hora certa para publicar, agora vai. 

Que a vida é feita de escolhas, todos sabemos. Mas quais as suas?
Não deixe que sua vida se torne um corredor de geleias no supermercado. Ignore o que você não gosta. Descubra o que você realmente gosta. Nem sempre é o mesmo que a maioria. Não ligue. Curta. Não coma geleia de erva doce com cravo da Índia se você prefere a de morango. Simples assim.
Feche os olhos e sonhe.
Mas não perca tempo. Ele, assim como suas palavras, não voltam.
Seus ato não podem ser pintados. Use a razão, não a emoção.
Cabelos podem ser pintados ou não. Escolha. Sinta-se bonito. Beleza é fundamental. Alegria também. Beleza não é ser igual. Não é ser perfeito. É se sentir bem.

Faça esportes. Endorfina é a única droga legal e é legal.
Cuide do seu corpo e lembre-se , seu joelho não pode ser trocado, ainda.
Cuide dele. Cuide da sua mente. Alimente-a com cultura, arte, literatura.
Estes prazeres também curam a alma. Seja ela religiosa ou ateia.
Escolha o que come e saiba de onde vem. Se decidir comer foie gras, que seja, mas saiba como ele é feito. Coma carne. Proteínas também fazem bem à saúde. Ou seja vegetariano. Mas não tente fazer dos outros espelho das suas escolhas.

Seus amores devem ter cores. Nessa hora, esqueça a razão, vá pela emoção. Lágrimas limpam a tristeza. Chore. Mas tenha cuidado para não se acostumar. Tristeza vicia você. Felicidade aborrece os outros. Use-a a seu favor. Abra um sorriso para quem fechou a cara. Livre-se das suas culpas. Mas não coloque-as em outros ombros. Se estão pesadas, torne-se mais forte e elas parecerão pequenas. Não guarde nada que não use bem. Livre-se de coisas e sentimentos inúteis sempre.

Faça terapia, converse com os amigos, ou siga a moda da Cabala, mas não deturpe o conceito da felicidade egoísta. Você não precisa ignorar o mundo para ser feliz. Ajude seus amigos. Amigos são os únicos bens reais que você tem. Cuide deles e caminharão a seu lado quando já não tiver mais energia para correr.

Não siga a moda. Ela muda. Você muda. Siga seus instintos. Mas não exagere.
Seu futuro será sempre incerto, assim como o de todas as outras pessoas. Hoje você pode não ter condições de fazer uma viagem de trem. Amanhã você poderá pagar a passagem de seu amigo milionário para Katmandu.
Lute sempre.

Se você acha que não gosta de trabalhar, ainda há tempo de aprender que o trabalho e nossa cama são os únicos lugares onde provavelmente vamos passar um terço da vida. Escolha o melhor colchão. Não trabalhe em “colchões” duros, eles vão destruir seu corpo e isso, não há dinheiro que cure.
Pense nos meios e você vai chegar ao fim. Seja honesto, principalmente com você. Aceite desafios. Sinta medo de vez em quando. Mude a rotina. Vá a pé, de bicicleta ou de carona. Dance. Simplifique a vida. Diminua a mala, aumente a viagem.

A música tem mais poder do que você imagina. Vá a concertos. Dificilmente vai encontrar um lugar com tantos dons reunidos num mesmo palco. Inspire-se.
Vá ao cinema sozinho. Desculpe o amigo que se distanciou, convide-o para um passeio no parque. Observe a natureza. Tire seus brinquedos do armário. Brinque. As coisas mais ”bobas” da vida, as vezes te levam a lugares incríveis.
Aprenda a escutar. Ouvir não é julgar. Seus conceitos podem ser pré-conceitos e isso só serve para uma coisa, injustiça.

Respeite as pessoas que gostam de você. Entenda seus pais. Você também pode ser pai um dia. Ou, mesmo que não seja, pode ser madrasta ou padrasto e hoje em dia, isso também é ser pai.
Faça suas escolhas, mas tenha certeza de que elas são suas, não tente fazer dos outros, espelhos de você, até porque, você provavelmente se assustaria com o que veria.
E lembre-se de não comer a geleia de erva doce com cravo da Índia, mesmo que ela seja preferência nacional. Ainda que você tenha um mundo dentro de si. Você é único. Escolha!



13 de outubro de 2011

Marcha Contra a Corrupção

  


O vão do MASP parecia sentir a vibração. Foi diminuindo de tamanho a medida que o povo chegava. Começou discreto. Algumas pessoas atravessavam a rua e paravam no meio. Parar no meio da Avenida Paulista? Isso deve ser loucura, pensavam os primeiros a chegar, e logo desistiam, seguiam rumo a outra calçada. O barulho era íntimo e acolhedor. Cada um devia estar se perguntando. E agora? O que fazer? Como começar o movimento?

Pouco a pouco as vozes surgiram. Eram são-paulinos, corintianos, brancos, negros, orientais, jovens e senhores. Todos brasileiros. Sussurravam envergonhados alguns versos. Depois outras vozes se uniram e o som cresceu. Os carros ainda passavam, mas iam mais lentos. Olhavam atentos para cada cartaz. O que aquela gente tinha para falar? “Acorda brasileiro, tão roubando o seu dinheiro”, dizia a cartolina nas mãos de uma senhora alegre vestida de preto. Os motoristas começaram a buzinar. Opa, esse povo aí está falando de mim, pensavam. Palhaços fantasiados ou não iam chegando. A indignação ia crescendo. As três senhoras que antes, tentaram fechar o transito, transformaram-se em trinta e logo depois duzentas. O transito parou. Gol. Sabe aquele grito amarrado que sai ao ver a bola na rede. Foi ele que acordou dentro de cada um.
 
Um grupo de senhoras. Uma turminha de adolescentes. Pais com crianças nos ombros. A marcha criou corpo e ao som de buzinas seguiu em frente.
Pra que isso? Perguntou um amigo pelo telefone? De que adianta gritar? Quem vai te ouvir? O que vai mudar?

Aí vai minha resposta:

Um país é feito de pessoas, não apenas de políticos. Cada um de nós tem voz e tem princípios. Nem tudo o que faço tem uma finalidade, neste caso tem uma força. Esta força se chama indignação. Infelizmente não sou o tipo de pessoa que é roubada, enganada, feita de palhaça e vira as costas como se nada fosse.
Se vou ajudar a mudar este país? Não sei, quem sabe.
Mudanças levam tempo e se nossa “marcha sem sentido”, como você disse, não ajudar a mudar a política, mas inspirar uma entre as milhares de crianças que participaram, quem sabe seja esta criança a governar o meu país um dia. O mundo é feito de exemplos, de princípios e de sonhadores. Alguns invejam a grama verdinha do vizinho, outros cuidam do próprio jardim. O que importa, meu amigo é que quem cala, consente.