17 de novembro de 2007

Um mundo entre os muros de silêncio

Há pessoas que adoram a solidão. Mas há também as que ignoram estar sós, e estar só quando acompanhada é dor que não acaba mais.Tenho um prazer quase perverso em assistir à esses mundos. Talvez por estar vendo de fora, do outro lado do muro de silêncio.Nossas risadas enchiam a mesa redonda de alegria e mostravam a quem se interessasse um universo em movimento,cheio de diversão e cumplicidades, amigos antigos.

De dentro desse mundo assisti quando um casal entrou no restaurante.
A mulher loira tinha os cabelos e o humor descorados pela tristeza e o tempo. Ela olhava para baixo a procura do que ficou para trás talvez.

O marido parecia mais velho embora o físico atlético enganasse um pouco.Sentaram-se a mesa ao lado e ficou claro para mim que nossa mesa os encomodava.Não o barulho, as risadas, mas a vida que derramava do nosso lado e escorria para seus pés.

Nenhuma palavra foi dita por eles, apenas alguns olhares carregados de tensão, um tipo de tensão acumulada e sem esperança de acabar. O garçom se aproximou depois de um sinal feito pelo homem e anotou o pedido, saiu e deixou o deserto sobre a mesa entre eles.

Nesse momento não ouvi mais nossos risos, ouvi os gritos mudos que ecoavam da mesa ao lado.Vi o dia em que ele a pediu em casamento, ainda eram jovens e acreditavam que a vida juntos seria perfeita.

Pra ela, além de perfeita seria chance de escapar dos olhos dos pais, além é claro, do gostinho de vitória entre as amigas, seria uma nova etapa na vida dela,uma nova fase onde a maior preocupação seria o marido, a nova casa e os problemas de trabalho, dele é claro.

Ele tirou do bolso uma caixinha enquanto pensou em seu último salário, reduzido àquele embrulhinho que agora representava o futuro. Embriagado em parte pelo vinho e um pouco pelo medo, olhou para os olhos ainda iluminados e passou as mãos pelos cabelos dourados da mulher que amava.

Sabia o que queria e esta certeza enchia de força suas decisões e suas palavras. Ignorou as mesas ao lado, nem ligou para a invasão de olhares.
Entregou a caixinha e junto a promessa de um amor cheio de surpresas e nisso estava certo. Uma lágrima caiu dos olhos dela e ele pensou na nova vida, uma mulher linda dormindo a seu lado.

A facilidade de não ter que leva-la para outra casa depois das taças de vinho, e não esperou mais nada, apenas que tudo ficasse igual só que mais perto.O garçom passou pela nossa mesa com outra bandeja de chops e uma água para o casal ao lado, ainda mudo.

Lembrei de um soneto decorado na minha adolescência :
De repente do riso fez-se o pranto Silencioso e branco como a bruma E das bocas unidas fez-se a espuma das mãos espalmadas fez-se o espanto.De repente da calma fez-se o vento Que dos olhos desfez a última chama E da paixão fez-se o pressentimento E do momento imóvel fez o drama.De repente, não mais que de repente Fez-se de triste o que se fez amante E de sozinho o que se fez contente Fez-se do amigo próximo o distante Fez-se da vida uma aventura errante De repente, não mais que de repente.

Os pratos chegaram e vi quando ela comeu sem sentir sabor, sem saber discernir o ruim do aceitável, o prazer da ilusão. Ele ainda tinha um quê de vida, vida fora dali, onde ainda haviam desafios e prazeres. Não parecia triste, cansado talvez, decepcionado, mas tinha pressa. Cortou a picanha esperando acabar logo a obrigação do final de semana e voltar à vida, à mesa de bar com os amigos, o futebol, o trabalho.

Pagaram a conta, o preço de suas escolhas. Devolveram meu olhar com desprezo e desculpas por estarem do lado de lá, e partiram, como entraram , sem trocar uma só palavra, sem cruzar os olhares sem tentar mudar.

3 comentários:

julio de castro disse...

coisa triste.

Pedro - RJ disse...

Sua escrita é simples, mas você sabe exatamente como nos tocar e emocionar com suas palavras.
Parabéns! Adorei o post.
bjo

Ju disse...

Giiiiiiiii, amei o texto! perfeito! Intenso e emocionante...faz pensar nos valores, nas expectativas da vida, no quanto viramos reféns das opiniões alheias e que é preciso mudar, sempre!!!
(Vinícius cantou junto com você em perfeita sintonia)
o máximo!
beijão, linda!