6 de março de 2007

O menino e o circo,uma história de vida

Antonio Carlos e ao fundo o filho e a mulher. O outro filho, loirinho, ainda pequeno dormia no colo da mulher.


Depois de alguns dias em Jericoacoara com muita chuva e nada de vento, voltei para Fortaleza, mas a melhor parte da viagem foi mesmo ouvir a história do Antonio Carlos:

Não havia ditadura forte o bastante para destruir a coragem do menino de quinze anos que decidiu um dia ser dono do mundo. Não o mundo cinza onde pessoas eram arrancadas das suas casas e jogadas em algum canto escuro de onde, se saia algum dia, nunca mais voltava a ser o que era. Com os cabelos afro, ao melhor estilo seventies, colocou suas calças boca de sino e camisa colorida, presente da amiga e vizinha americana, e foi mais uma vez tentar a sorte no "pais" dos seus sonhos, o circo Hollyday-on-ice!

Depois da habitual insistência, conseguiu entrar e não se satisfez em ver o show da platéia. Levado por sua curiosidade chegou até o camarim onde viu uma verdadeira torre de babel. Um alemão gritava em vão com ajudantes que não falavam uma palavra de inglês. Graças a vizinha, Antonio arriscou algumas palavras, que foram o suficiente para resolver o problema da maquina de gelo e a fúria do alemão.

Assistiu ao resto do espetáculo daquele dia e dos outros ao lado do novo amigo “gringo” e alguns dias depois, o pequeno intérprete estava pulando a janela do seu quarto com uma malinha e todos os documentos necessário para o passaporte, já emitido pela empresa de circo.

Em Buenos Aires, foi chamado por um homem que de tão bravo, nem parecia ser seu pai. Mas era. Minutos depois o pai voltava para casa, mais calmo e com a certeza de que o filho não voltaria tão cedo. O Alemão havia contratado seu filho e agora que o pai estava ali, tudo o que precisava era assinar alguns documentos para que, diante de seus olhos um sonho começasse a se realizar.

A turnê acabou, o circo voltou para Europa e o menino continuou seu trabalho de intérprete. Não demorou muito para aprender também alemão e holandês e traduzir mais do que problemas com a maquina de gelo. Sua aparência exótica ajudava na hora das histórias sobre um país distante onde tudo parecia mágico e bonito.
O interprete se tornou atração por trás das cortinas. Enquanto o público aplaudia os saltos e toda a graça da mocinha branca de olhos azuis deslizando sobre o gelo, os olhos dela, porém, só viam graça num menino moreno de sorriso fácil e muita criatividade.

No Brasil a ditadura chegava ao fim depois de anos que pareciam séculos. Em Amsterdã um brasileiro se casava com a rainha do gelo, depois de anos que mais pareciam voar sobre o gelo.

Hoje, trinta e três anos depois, num ônibus cearense, uma holandesa com dois filhos, conta com entusiasmo os planos de viver neste país distante e abrir uma creche onde vai ajudar meninos que não tiveram a sorte e a força do seu Antonio Carlos.

Um comentário:

Márcio Pimenta disse...

Estive em Fortaleza no carnaval. As impressões que você trouxe foram bastante ricas.

Beijos!