13 de julho de 2011

O Amor é falta ou Plenitude

Sentados ao redor da mesa, do lado de fora de um dos bares da linda cidade de Paraty, conversando com o caro amigo Sandro, professor de filosofia em Juiz de Fora, quis saber algumas das questões das provas que ele havia deixado no hotel e preocupado, pensava em voltar para corrigir.
"De onde vem o desejo?" Ele disse. Esta é uma das perguntas da prova.

Recorri à todos os arquivos filosóficos, psicológicos e existenciais conhecidos por mim e nada. Nada de concluir a resposta que adolescentes deveriam responder. Minutos depois, com a calma necessária para assistir à agonia de quem se debate entre mais dúvidas que soluções, ele deu um gole na cerveja e disse.

"O desejo vem da falta".  
Como sempre, diante da resposta, difícil é não saber como não pensei nisso antes. Bem eu, apaixonada pelas ideias de André Comte-Sponville. E foi justamente um texto dele, que meu amigo mandou.

Divirtam-se neste mar de questões.

O amor é a falta ou a plenitude

Roland Barthes ja observava: o amor é um assunto mais obsceno, para nossos comtemporâneos, do que o sexo. Mais incomodo. Mais íntimo. Mais difícil de dizer, de mostrar, de pensar. Digamos que a sexualidade tornou-se uma espécie de regra, a qual não há como não se submeter. O amor seria antes uma exceção. A sexualidade faz parte de nossa saúde. O amor seria antes uma doença, em todo caso um distúrbio. A sexualidade é uma força. O amor seria antes uma fraqueza, uma fragilidade, uma ferida. A sexualidade é uma evidência; o amor, um problema ou um mistério. Pode-se duvidar, inclusive, de sua existência ou, no mínimo, de sua verdade: e se fosse apenas um sonho, uma ilusão, uma mentira? Se por toda parte existisse apenas o sexo e o egoismo? Se todo o resto não passasse de literatura? Se o amor só existisse, como já o sugeria La Rochefoucauld, na medida em que falássemos dele ? 
Isso, no entanto, não seria nada, já que dele falamos com efeito, já que dele falamos sem parar. E já que o egoismo é um amor ainda - é o amor de sí -, cuja existência e força não podemos contestar muito. Se não nos amássemos a nos mesmos, como poderíamos nos preferir, como é claro que fazemos quase sempre, e por que desejaríamos ser amados? 
E depois há os filhos: se não os amássemos, teríamos medo a esse ponto? 
E depois há os amigos:  mesmo que não os amássemos senão para nós, o que é com efeito concebivel, ainda assim seríam mais preciosos a nossos olhos do que nossos inimigos, que detestamos, ou que aqueles, inumeráveis, que nos são indiferentes. É preciso, pois, que o amor não seja nada, já que introduz pelo menos, em nossas relacões, essa diferença: entre aqueles que nos são caros, como se diz e aqueles que nada são para nós. 
E depois há todos aqueles amores que nos estorvam, cuja existência não podemos por isso contestar: o amor ao dinheiro, ao poder, à gloria... 
E depois há aqueles que nos regozijam: o amor à boa mesa, ao prazer, à vida... Que valeria o sexo, inclusive, se não o amássemos?

Podemos dizer que se trata de amores muito diferentes, que não podemos colocar no mesmo plano o amor que temos por um objeto (por uma iguaria, ou um vinho, por exemplo) e aquele que sentimos por um sujeito, que somente ele seria amorverdadeiramente... Talvez. Mas, enfim, só podemos distinguí-los se primeiro os compararmos. E além disso a linguagem me dá razao, na maioria das linguas: " O amante, dizia Platão, ama a criança como um prato de que se quer saciar, ou como o lobo ama o cordeiro..." E Nietzsche, para zombar do amor pelo próximo: "Como a águia não gostaria do cordeiro, de carne tao prazerosa?" 
Tomo o amor em sua extensão máxima, e tento entender o que ele é. Amo o vinho e a cerveja, Mozart e Vermeer, as mulheres e esta mulher... O que há em comum entre esse diferentes amore? Um certo prazer que dele espero ou que nele encontro, uma certa alegria, até mesmo, por vezes, como uma felicidade possivel. Amar é poder desfrutar ou regozijar-se de algo ou de alguém, É portanto, também poder sofrer, já que prazer e alegria dependem aqui, por definição, de um obejeto exterior, que pode estar presente ou ausente, dar-se ou recusar-se...   " Em relação a um objeto que não é amado, escreve Espinosa, nenhuma querela nascerá; não sentiremos tristeza se vier a perecer, nem ciúme se cair em mãos de outro, nem temor, nem ódio, nem perturbação da alma..." Estamos longe disso, e basta dizer que o amor nos prende como a ele nos prendemos. Se nada amássemos, nem nós mesmos, noss a vida seria mais tranquila do que é.  Mas é que também já estaríamos mortos. Não se pode viver sem amor, explica Espinosa, ja que é o amor que faz viver: "Em razão da fragilidade de nossa natureza, sem algo de que gozemos, a que estejamos unidos e por que sejamos fortalecidos, não poderíamos existir." O amor é uma potência - potência de gozar e de regozijar-se - mas limitada. Por isso ele marca também nossa fraqueza, nossa fragilidade, nossa finitude. Poder gozar e poder sofrer caminham juntos, como a alegria e a tristeza, e é o que significa o amor: que estamos fadados à instabilidade, à esperanca e ao temor, ao gozo e à falta, enfim ao trágico e à insatisfação. Uma saida? Seria preciso amar apenas a Deus ou a tudo, o que dá no mesmo, e é o que Espinosa chama a sabedoria. Mas quem é capaz disso? 
O que é o amor? Espinosa dá esta bela definição: "O amor é uma alegria acompanhada da ideia de uma causa exterior." Amar é regozijar-se de. Mas, e se a causa faltar? Resta, então, a mágoa ou a falta. 
É onde se pode pensar a relação entre duas definições do amor, que dominam toda a história da filosofia. Há a de Espinosa, que já era, no essencial a de Aristóteles "Amar, dizia este último, é regozijar-se." E há em seguida ,a de Platão, que parece dizer bem o contrário. O amor, para Platão, não é primeiramente uma alegria. O amor é falta, frustração, sofrimento: "O que não temos, o que não somos, o que nos falta, eis os objetos do desejo e do amor." Sao dois amores diferente, que os gregos designavam por duas palavras diferentes: Philia para a alegria de amar, e eros, para a falta. A amizade, se quisermos, e a paixão (falta insaciavel do outro). Seria errado entretanto opô-las de modo demasiado estrito, demasiado simples. A maioria de nossas historias de amor mistura ambos os sentimentos, e no fundo é feliz já que estamos fadados à falta, pela fini tude, e já que apenas a alegria nos conforta e ou nos preenche... O sexo, por exemplo, pode ser vivido tanto na falta quanto na alegria,e até, quando tudo vai mais ou menos bem, não cessa de nos acompanhar desta àquela, daquela a esta, é nisso que ele se assemelha a nós ou se aseemelha ao amor, é nisso que nos assemelhamos a ele quando amamos... 
A falta e a alegria, eros e philia, não são menos diferentes um do outro, Eros é primeiro, claro, já que a falta é primeira: veja o recém-nascido que busca o seio, que chora quando lho retiram... é o amor que toma, o amor que quer possuir e guardar, o amor egoista, o amor passional; e toda paixão devora. Te amo: te quero. Como este amor seria feliz? É preciso amar o que não temos, e sofrer com essa falta; ou então ter o que não falta mais  (já que o temos) e que por isso amamos cada vez menos (já que só sabemos amar o que falta). Sofrimento da paixao, tedio dos casais. Ou então é preciso amar de outra maneira: não mais na falta mas na alegria, não mais na paixao mas na ação - não mais em Platão mas em Espinosa. Te amo: sinto-me feliz porque existes. Todo casal feliz, e apesar de tudo existem alguns, é uma refutação do platonismo. 
Eros é a falta e a paixao amorosa: é o amor que prende ou que quer prender. Philia é a potência e a alegria duplicadas pelo outro; é o amor que se regozija e compartilha. 
Olhe a mãe o e o filho. O filho toma o seio: é eros, o amor que toma, é a propria vida. E a mãe dá o seio: é philia, o amor que dá, graças ao qual tudo continua e muda. Pois a mãe foi primeiro um filho: como todos, começou tomando. Mas aprendeu a dar, pelo menos a seus filhos, e é o  que se chama um adulto. No inicio existe apenas eros (há apenas o isso, como diz Freud), e talvez disso nao escapemos: cada um começa tomando e não para nunca. Mas, enfim, trata-se de aprender a dar, ao menos um pouco, ao menos às vezes, ao menos àqueles que amamos, àqueles que nos fazem bem ou nos regozijam... 
É ainda egoismo? Pode ser, e por que não? Como poderíamos amar o que quer que seja se nao amássemos a nós mesmos? Não se sai do principio de prazer: trata-se sempre de gozar o máximo possivel, de sofrer o menos possivel... Não é a mesma coisa, no entanto, gozar apenas do que se toma, ou então saber gozar, às vezes, do que se dá ou se compartilha... 
Dar sem tomar? Regozijar-se sem querer possuir nem guardar? Seria philia liberada de eros, seria o amor liberado do eu, a alegria liberada da falta, e foi o que os primeiros cristãos - quando foi preciso traduzir para o grego a mensagem de Cristo - chamaram agapè, que pode ser traduzido indiferentemente por amor ou caridade. É o amor liberado do eu, e por isso sem fronteiras, sem margem, sem limite...Que dele sejamos capazes, duvido muito. Mas enfim, isso indica pelo menos uma direção, que é a do amor: o amor não e o contrario do egoismo; é seu efeito, sua foz - como um rio se lança no mar -, enfim seu remédio ou, como diria Espinosa, sua salvação.

Vais passar toda tua vida a buscar um seio, ou  a querer guardá-lo ou a dele sentir saudades,  quando há um mundo inteiro a ser amado?


André Comte-Sponville

Um comentário:

Robson Ojuarah disse...

a filosofia sempre me fascina, pq sempre nos lembra que nunca sabemos de tudo..

otimo texto

se possível. visite meu blog

www.semente-terra.blogspot.com